Tricampeão em Indy, Helio Castroneves fala sobre o kartismo

Homem-aranha: a comemoração que se tornou marca registrada de Helio Castroneves (Crédito: Divulgação/IndyCar)
O tricampeonato das 500 Milhas de Indianápolis e a vitória no “Dancing with the stars” – a versão original da “Dança dos Famosos” – fizeram Helio Castroneves se tornar um dos mais famosos pilotos da Fórmula Indy. Na categoria desde 2001 – quando a Penske migrou da Champ Car para a IRL (Indy Racing League) – Helio colecionou vitórias e recebeu o apelido de Homem-Aranha, em referência às suas comemorações após vitórias: ao invés de dar os chamados “zerinhos”, ele escala o alambrado e faz a festa com a torcida: o ritual começou em sua primeira vitória na carreira em uma categoria top dos monopostos, em Detroit Belle Isle, no ano de 2000 (ainda na Champ Car): sem saber o que fazer, inovou. Em 2008, disputou o título até a última etapa do ano, no oval de Chicago, quando venceu a prova, mas viu Scott Dixon, que cruzou a linha lado a lado, levantar o caneco. Teve de se contentar com o vice. Na atual temporada ocupa o 9º lugar.
Mas esse é o Helio que todos conhecem. E quanto ao Helio Alves de Castro Neves dos tempos de kart? O Helio que foi Campeão Brasileiro em 1989, que tinha como ídolo Ayrton Senna e nem sabia o que eram as 500 Milhas de Indianápolis? O Helio que corria com o 34 e não com o 3? Para falar disso que o Allkart.net foi atrás do Helinho, que falou de quando andava sozinho em uma pista em São Carlos (interior de SP), dos preparadores com quem trabalhou, dos seus kartódromos preferidos, do porquê de não participar frequentemente de provas como o Desafio das Estrelas e das 500 Milhas da Granja Viana, da rivalidade com o amigo Tony Kanaan, cultivada há mais de duas décadas e da importância que o kart teve na construção de sua carreira. Um material imperdível!

Helio, ainda garoto (Crédito: Arquivo Pessoal)
Allkart.net – Como começou sua carreira? Como descobriu o kart?
Helio Castroneves - Passei a conviver com a atmosfera de corrida desde pequeno, pois meu pai (Helio) era dono de uma equipe de Stock Car. Entrava nas pistas escondido no porta malas do carro. O piloto era o Alfredo Guaraná Menezes, o “tio” Guaraná, que me deu meu primeiro kart. Isso foi em 1987, quando comecei a treinar. A família e os amigos se reuniam numa pista de kart em São Carlos e, enquanto faziam churrasco, eu ficava horas e horas treinando. Até que chegou uma hora que começou a ficar chato correr sozinho, aí meu pai me inscreveu numa etapa do Paulista de Kart e foi esse o começo de tudo.
Allkart.net - Qual era seu sonho de carreira quando corria de kart?
HC - Naquela época, a garotada toda tinha um único sonho: ser piloto de Fórmula 1. Comigo não era diferente. Eu não fazia nem ideia que existia Indianapolis, circuito oval ou Fórmula Indy. Meu negócio era ser piloto de Fórmula 1. Você tem de lembrar que naquela época era uma loucura a Fórmula 1. O Nelson Piquet tinha acabado de ser tricampeão com a Williams, logo depois foi o Ayrton Senna que começou a ganhar tudo. Então, naquela fase que minha geração estava criando suas carreiras no kartismo, o Brasil estava com tudo na Fórmula 1, ganhando muitos campeonatos.
Allkart.net - Você imaginou chegar onde chegou, vencendo três edições da 500 Milhas de Indianápolis?
HC - Não, na minha época do kart, lá no comecinho, eu nem sabia que tinha a 500 Milhas de Indianapolis. A primeira vez que tive contato com a corrida foi vendo pela televisão a vitória do Emerson Fittipaldi em 1989. Como eu estava ligado mais na Fórmula 1, lembro que meu pai ficou o tempo todo respondendo minhas perguntas, porque, para mim, assim como para a maioria dos brasileiros que gostavam de corrida, aquilo era tudo muito novo. Indianápolis só entrou na minha vida muito tempo depois.

O "tio" que deu o presente ao menino: Alfredo Guaraná Menezes. (Crédito: Arquivo Pessoal)
Allkart.net - Em qual piloto você se inspirava quando estava no kart? Quem era seu ídolo naquela época?
HC - Meu ídolo sempre foi o Ayrton Senna. Para mim e para toda aquela geração. Além de ser um piloto sensacional, era um cara muito legal. Tive uma oportunidade maravilhosa de correr com ele na fazenda de Tatuí e tenho lembranças muito boas daquele dia. Além disso, o Ayrton ensinou para todos nós que não bastava sentar no kart e acelerar, tinha de ser muito dedicado, esforçado, cuidadoso com os detalhes técnicos e físicos. Então, foi uma postura que influenciou todo mundo.
Allkart.net - E hoje, esse ídolo ainda é o mesmo?
HC - Continuo tendo o maior carinho e admiração pelo Ayrton Senna, a quem tenho como um grande exemplo a ser seguido de dedicação, força de vontade e luta. Mas a gente vai crescendo e vendo o mundo de outra forma. Hoje, digo sem qualquer dúvida: meu grande ídolo se chama Helio, meu pai.
Allkart.net - Qual foi o melhor kartista que você já viu correr?
HC - Seria inoportuno citar nomes, pois muitos deles são meus amigos e continuam em atividade, mas sem dúvida os grandes talentos do automobilismo, em sua esmagadora maioria, saíram dos kartódromos. Se você olhar uma foto daquela época, com todos os kartistas de 1987 ou 1988, por exemplo, você vai identificar no meio daquela molecada toda alguns que conseguiram continuar na carreira e chegaram em posições muito boas. Acho que essa é a melhor prova de que a geração era muito boa.

A geração de Helio no Kartódromo de Interlagos, em São Paulo, com o autódromo ao fundo. O entrevistado está agachado no centro, com o capacete vermelho em mãos (Crédito: Arquivo Pessoal)
Allkart.net - Com quais preparadores você trabalhou?
HC - No início, quem cuidava do meu kart eram os funcionários da empresa do meu pai, mas com o passar do tempo, principalmente depois que fui para o Paulista, a coisa foi ficando mais séria e trabalhei muito tempo com o Passoca, com o Tato, com o Mané, Mario Sérgio. Uns caras muito legais e que me ajudaram bastante. Tenho ótimas lembranças daqueles tempos, era tudo muito divertido e novo para mim. Foi fantástico.
Allkart.net - Qual foi a importância do kart na sua formação como piloto?
HC - Eu tenho uma opinião muito clara sobre a formação de pilotos. A receita é mais simples do que fritar ovo: treinar, treinar e treinar… correr, correr e correr. O piloto precisa treinar muito, conhecer todos os detalhes de funcionamento do seu equipamento, entender o que está dentro do motor, como é o sistema de freio, que história é essa de cambagem, calibragem e sei lá mais o que. Isso tudo você só aprende na prática. E também não adianta nada alguém acertar o kart e você, piloto, não ter a menor ideia do que está acontecendo. E o kartismo proporciona todas essas atividades que formam o piloto e permitem que ele aprenda bastante.
Allkart.net - Você acha que o kart deve ser uma passagem obrigatória para qualquer piloto?
HC - Não existe esse negócio de “passagem obrigatória”. Cada um tem de seguir o seu caminho, as suas condições e acreditar no que está fazendo. Mas, por experiência própria eu digo, passar pelo kartismo é muito, muito importante para a formação de um piloto. E tem também um aspecto que é mais importante até do que a questão esportiva. O kartismo ajuda a formar o cidadão, o que é uma escola também nesse sentido para a molecada.
Allkart.net - Como foi aquele Brasileiro de 1989, que você venceu?
HC - Cara, aquele brasileiro foi uma loucura, e inesquecível sob muitos aspectos. Durante a semana as coisas não estavam indo bem e lembro que fiquei desanimado. Mas aí é aquela história: aprendi desde cedo que é nas horas difíceis que se deve manter o equilíbrio e a concentração. Quando a coisa fica ruim, mesmo, ou você sai correndo e vai chorar no colo da mãe ou se debruça sobre o problema e tenta resolver. Se conseguir, ótimo, valeu o esforço. Se nem assim for possível, paciência, pelo menos você tentou e deu o seu melhor.
Allkart.net - Você se lembra de detalhes desse campeonato? Qual era o motor/chassi? Detalhes ainda menores, número de coroa, por exemplo?
HC - Calma lá, né? Minha memória é boa, mas também não é para tanto! Aposto que o seu Helio tem tudo isso anotado e bem guardado, mas eu não me lembro. Corri, como sempre, com chassi Mini e com os motores do Mario Sérgio. Foi lá no Kartódromo de Tarumã e lembro que tinha um piloto gaúcho muito rápido, mas tão rápido que começou a despertar suspeitas. De fato, ele acabou sendo desclassificado por uma questão técnica e eu fiquei com o título.

À época ele ainda não subia nos alambrados para comemorar vitórias. (Crédito: Arquivo Pessoal)
Allkart.net - Faltou conquistar algum título no kart?
HC - Não, não faltou título algum. Naqueles que participei de forma planejada e competindo integralmente, pude conquistar títulos importantes. Não fui campeão mundial, por exemplo. Mas ali eu estava aprendendo e foi muito válido. Aliás, agora em novembro será lançado no Brasil, em português, o meu livro. Há um espaço bem grande contando a minha fase de kartista e especialmente sobre o meu primeiro mundial, que foi na Itália.
Allkart.net - Quais eram suas pistas favoritas na época de kartista?
HC - Eu gostava muito de correr em Interlagos e em Limeira. O kartódromo de Campinas também era muito legal. Mas, para falar a verdade, não importava a pista. A alegria de correr era tanta que qualquer pista estava valendo, quanto mais desafiadora, melhor. Ah, não posso esquecer da pista da Jaú, local da primeira primeira vitória no kartismo.
Allkart.net - Qual foi a sua melhor corrida no kart?
HC - Não teria uma corrida para indicar, mas acho que a conquista do Brasileiro de 1989 foi um momento de muito garra e superação. Houve também uma prova de longa duração em Londrina, que precisava correr em dupla e eu me inscrevi sozinho. Acho que era uma corrida de seis horas. O pessoal da organização não acreditava que eu conseguiria terminar, muito menos vencer. Aí a gente fez uma aposta: se eu vencesse, levaria não um troféu, mas os dois. Trato feito, venci e levei os dois troféus. Só que não me lembro como cheguei em casa. Deitei no banco de trás do carro, “desmaiei” e só fui acordar em Ribeirão!
Allkart.net - Você já saiu chorando da pista? E qual foi a derrota mais doída no kart?
HC - Está me perguntado porque eu sou chorão, né? Mas eu choro mesmo é de alegria, nas comemorações, de emoção. Nos problemas, não, a reação é outra. Não diria chorando, mas certamente já deixei as pistas – não só no kart, mas também nos monopostos e até na Indy – com sentimento de frustração porque você não tem o controle de tudo e quando alguma coisa escapa, tudo vai por água abaixo.

Com seu chassi Mini, Helio lidera o pelotão; logo atrás está Tony Kanaan: briga antiga que dura até hoje. (Crédito: Arquivo Pessoal)
Allkart.net - Você e o Tony Kanaan são adversários desde o kart e passaram juntos por diversas categorias depois, especialmente nos Estados Unidos. Como eram as disputas entre vocês no kart?
HC - Tony e eu somos amigos desde 1987, quando comecei a correr em São Paulo. São quase 25 anos aguentando aquele narigudo! (risos). Eu ficava na casa dele quando vinha para São Paulo, ele também ficava uns tempos lá em casa em Ribeirão Preto e sempre estivemos correndo próximos um do outro. Ele era um adversário muito forte – como é até hoje – e vencer uma corrida no kart ou na Indy, você tem necessariamente de vencê-lo também, pois ele é sempre um forte candidato à vitória.
Allkart.net - Quais foram seus grandes rivais no kart?
HC - Tive grandes disputas com o próprio Tony, Felipe Giaffone, Enrique Bernoldi, Glauco Alex e uma galera que não era mole, não.
Allkart.net - Você continua correndo de kart?
HC - Correr, propriamente, só em ocasiões especiais. Mas treino sempre que posso de kart aqui na Flórida. Serve para inúmeras coisas, mas no meu caso tem um papel fantástico para relaxar as tensões.
Allkart.net - Que modelo de kart costuma usar?
HC - Aqui eu uso dois. Vou de Mini com motor Honda CR 125cc de 30hp ou Tony Kart com motor Vortex KZ 125cc e 48hp (Shifter).
Allkart.net - Algum motivo específico para você não disputar regularmente provas como as 500 Milhas da Granja Viana ou o Desafio das Estrelas, que recebem nomes como Tony, Barrichello e até o Schumacher?
HC - Agenda. Tudo depende da agenda. Digo isso porque existem muitos compromissos mesmo entre uma temporada e outra, e as atividades da Penske junto a patrocinadores são muito intensas mesmo fora da época de corridas. Então, foram vários os convites e nunca faltou vontade de participar todo ano, para sempre tinha um compromisso que impedia a minha vinha. Para você ter uma ideia, no ano passado foi a primeira vez que eu consegui ir ao Brasil para a corrida do Felipe Massa.

A única participação de Helio no Desafio das Estrelas foi em 2010: o reencontro com o número 34. Na foto, ele duela com outro que chegou longe na carreira, Luciano Burti, ex-F1. (Crédito: Miguel Costa Jr.)
Allkart.net - Vai correr as 500 Milhas esse ano? Com quem?
HC - Vontade não falta, mas realmente estou com dificuldades de agenda novamente, mas quem sabe eu não consiga resolver isso e apareça por lá?
Allkart.net - Você acompanha a situação do kart no Brasil atualmente? Que avaliação pode fazer da modalidade?
HC - Obviamente que não tenho condições de fazer uma análise objetiva sobre o que está acontecendo, pois por mais que a gente fique atento, não estando aí fica difícil opinar. Mas uma coisa eu sei. O piloto só aprende treinando muito. Esse negócio de limitar treinos não é fator de aprendizado, não é assim que se formam os pilotos. E por falar em formação de pilotos, o kart sempre foi e continua sendo a grande escola do automobilismo. Mas dificilmente você vai ter uma geração de campeões oriunda do kart se o kartismo está muito caro e impedindo a entrada da garotada. Tem de ter uma fórmula de equilíbrio. Claro que todo mundo envolvido tem de ganhar dinheiro por ser esse o seu negócio, mas não adianta nada ter poucos pilotos e preços lá no alto. Tem de ser justamente o contrário. E também não adianta o piloto e sua família acharem que tem de vencer no kart de qualquer maneira, mesmo dilapidando o patrimônio. Todo mundo tem de entender que o kart é apenas um primeiro passo, uma escola, um aprendizado. Depois disso vem muita coisa por aí.
Allkart.net - Você pretende/gostaria de se envolver em algum projeto relacionado ao kartismo?
HC - Já estou envolvido, de certa maneira. A Castroneves Racing foi criada para cuidar da minha carreira e se desenvolveu bastante nesse campo. Mas como eu já estou meio grandinho, hoje toda aquela estrutura está disponível para ajudar na condução de carreiras de alguns pilotos que estão buscando espaço nos Estados Unidos. Nesse sentido, temos feito alguns trabalhos e também para o kart.
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Comentários
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helinho você que lutou tanto para chegar ao auge, de uma força para alavancar e resgatar nosso kartodromo aqui de ribeirao preto se voce ama ribeirao preto os kartistas de rib preto tambem amam. Você pode ajudar-nos. Abraços joao luiz