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  • 29.9.2011 - 17:37
  • “Eu ganhei a primeira corrida de kart da história do Brasil”
  • O Allkart.net entrevistou Wilson Fittipaldi Jr., um dos pioneiros no kartismo nacional – Parte 1

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    Wilson Fittipaldi hoje (Foto: Ricardo Belussi/Allkart.net)

    Wilson Fittipaldi é conhecido no mundo todo por sua passagem pela Fórmula 1, como piloto e chefe de equipe. A Copersucar Fittipaldi, única equipe brasileira na história da categoria que, apesar das dificuldades, sobreviveu por oito anos na principal categoria do automobilismo mundial - conquistando, inclusive, três pódios, sendo que o mais lembrado foi o segundo lugar de Emerson Fittipaldi no GP do Brasil de 1978. No Brasil, a família Fittipaldi é conhecida por estar há gerações envolvida com corridas, desde que o “Barão” Wilson, o patriarca, narrava as competições no rádio.

    Só que a relação se tornou mais importante nos anos de 1950, quando o filho mais velho, Wilson Fittipaldi Júnior, nascido no dia de Natal do ano de 1943, venceu a primeira corrida de kart da história do Brasil. Uma prova disputada por dez pilotos, todos equipados com Rois Karts, em um circuito de rua improvisado no Jardim Marajoara, bairro “no caminho para Interlagos”, em São Paulo. Como se fosse amor à primeira vista, a relação de Wilson e dos Fittipaldi com o automobilismo só se estreitou.

    Mas todos conhecem o Wilson que correu na Europa e na Fórmula 1. E quanto ao garoto que aos catorze anos andava de kart e que, aos dezoito, criou o que hoje é a Kart-Mini? É o que o Allkart.net conta nesta entrevista com o vencedor da primeira corrida de kart da história do Brasil, do primeiro Campeonato Paulista, do primeiro Campeonato Brasileiro e com o fundador da primeira fábrica nacional de chassis. Não deixe de conferir nenhuma das duas partes.

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    Foto da primeira corrida de kart do Brasil. Nela estariam Cláudio Daniel Rodrigues, Wilsinho e Maneco Combacau (Foto: Museu do Kart)

    Allkart.net - Como foi o seu primeiro contato com o kart?

    Wilson Fittipaldi - Meu pai tinha um amigo chamado Cláudio Daniel Rodrigues, que resolveu construir um kart. Ele ia muito para os EUA, e lá já existia o kart. Ele trouxe um chassi para cá, copiou e produziu o primeiro kart do Brasil. Era o Rois Kart, construído na Rua Clodomiro Amazonas, em São Paulo. Depois de fazer vários testes, ele produziu 10 karts, com os quais organizou a primeira corrida da história do Brasil, e me chamou para participar.

    Eu falei pro meu pai e ele disse, “vai lá! Se quiser correr, corre”. É lógico que eu queria. Tinha 14 anos. A primeira prova foi no Jardim Marajoara, no caminho para Interlagos. Tinham algumas casas só. Montaram a pista e fizeram a corrida. Eu venci a primeira corrida de kart da história do Brasil. Foi o começo de tudo.

    Allkart.net - Como era aquele kart?

    Wilson Fittipaldi - O kart usava um motorzinho de bomba de poço, usado para puxar água, montado na lateral. Um motor fraco, mas era o que tinha. No final da reta desta pista do Marajoara chegava a uns 80 por hora –para a época, era bom, bem rápido. Só que ainda não tinha pneu específico. O traseiro era de carrinho de mão, daqueles que você compra para levar areia. Eram maiores que os dianteiros, que eram daqueles carrinhos de empurrar.

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    Anúncio do Rois Kart veiculado na Revista Quatro Rodas, abril de 1962 (Foto: Museu do Kart)

    Allkart.net - Quais foram os pilotos daquela primeira corrida?

    Wilson Fittipaldi - Ninguém que virou piloto. Eu era o mais novo do grid, com 14 anos. O Cláudio, que era o dono da fábrica, escolheu alguns amigos dele que gostavam de automobilismo, mas ninguém que ficou famoso depois.

    Allkart.net - O Cláudio Daniel Rodrigues já tinha alguma relação com corridas?

    Wilson Fittipaldi - Ele corria todas as provas que aconteciam em São Paulo e no Rio de Janeiro com um carro inglês chamado MG. Ele tinha outros amigos que corriam de carro, o único que não corria era eu. O mais novo dali tinha uns 24, 25 anos.

    Como era aquela pista do Jardim Marajoara?

    Wilson Fittipaldi - Abriram ruas no bairro e asfaltaram, e era boa a pista. Para uma pista de rua, era bastante interessante.

    Allkart.net - Onde mais havia corridas de rua?

    Wilson Fittipaldi - Corríamos bastante na rua. Em Ribeirão Preto tinha uma pista boa, depois a gente correu na Base Aérea de Cumbica. A base é lá até hoje e, do outro lado dela, havia várias ruas que tinham acabado de asfaltar. Um dia, um comandante viu uma corrida no Marajoara e disse “por que vocês não vão correr lá na Base Aérea?”. A gente foi conhecer o lugar e era legal. Vocês devem lembrar o nome de quem ganhou a corrida. Depois ele correu com a gente de Fórmula 1. Foi “aquele” José Carlos Pace.

    Allkart.net - Existe alguma coisa naquele kart que se assemelha ao atual?

    Wilson Fittipaldi - Quatro rodas, só. A parte técnica é totalmente diferente. Distribuição de peso, o material usado para a construção é diferente, o motor, tudo é diferente. O kart de hoje é duzentas vezes mais rápido. Principalmente em velocidade de curva.

    Allkart.net - Antes de andar de kart, qual era o primeiro contato que alguém podia ter com o automobilismo?

    Wilson Fittipaldi - O primeiro contato com uma coisa chamada competição eu tive aos 11 anos. Existia uma retífica de motores aqui em São Paulo chamada Levorin, que fez uma corrida com uns carrinhos que eles chamavam de caixa de sabão. Eram de madeira, sem motor, e as corridas eram bem organizadas “pra chuchu”.

    Eles fechavam a Rebouças – sim, a Rebouças (N.R.: Avenida Rebouças, hoje uma das mais movimentadas e importantes do centro de São Paulo. Ligação entre o centro da cidade e a zona sul) – e desciam no carrinho até lá embaixo. Tinham mais ou menos uns 100 inscritos, que largavam de cinco em cinco. O primeiro voltava e passava de fase; os outros quatro ficavam fora, e assim ia. Eu terminei em 2º lugar.

    Na Rebouças, aquilo alcançava mais ou menos 40 quilômetros por hora. Para frear, havia uma alavanca do lado, um pedaço de pau, que você puxava, batia no chão e ia freando. O carrinho tinha mais ou menos uns dois metros. A roda era de madeira, feita no torno, muito bem feita, por sinal, e no meio tinha um rolamento (então ela era bem solta, rodava bem rápido).

    O outro contato que a gente tinha com corrida era em carrinhos de rolimã. Inventavam uns carrinhos de rolimã maiores, menores, rolimã que andava mais, que andava menos. Eu ia na oficina lá perto de casa, pegava rolamentos velhos e fazia os carrinhos.

    Allkart.net - Como surgiram os primeiros campeonatos?

    Wilson Fittipaldi - Nós fizemos, naquele primeiro ano, mais quatro ou cinco corridas de kart. A do Jardim Marajoara foi em maio ou junho, se não me engano. Dessas quatro ou cinco, eu ganhei três. Quase todas. Para o ano seguinte o Cláudio resolveu organizar um campeonato, o Paulista de Kart.

    Construiu-se, então, um kartódromo em um clube em Cotia, o Santa Cruz Country Club. Foi o primeiro kartódromo que apareceu no Brasil. Fizemos o Paulista inteiro lá, com mais ou menos 20 a 30 karts. Eu ganhei o campeonato. No ano seguinte, o terceiro do kart, criaram o Campeonato Brasileiro, que foi em Ribeirão Preto, e eu também ganhei. A essa altura, já tinha 17 anos e comecei a olhar mais para os automóveis, estava procurando um carro para correr.

    No meu primeiro ano nos automóveis eu resolvi fazer, como negócio para mim, uma fábrica de kart. Criei, então, o Mini Kart. Quem criou o nome Mini fui eu e quem construiu também. Falei: “tenho que fazer um kart revolucionário, com alguma coisa técnica mais adiantada”. Então importamos pneus e fizemos um kart muito mais baixo, com o banco muito mais inclinado. O motor saiu da lateral e foi para o centro do kart, atrás. O Mini tinha uma distribuição de peso totalmente diferente e boa. O sucesso do kart foi tão grande que o que se fazia, vendia. Qualquer grid do Paulista ou do Brasileiro tinha 90% de Mini.

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    Matéria da Revista Autoesporte sobre a estreia da Kart Mini (Fonte: Museu do Kart)

    Allkart.net - De onde surgiu o nome Mini?

    Wilson Fittipaldi - Quando eu fiz o kart e a gente colocou um do lado do outro, o outro parecia um mastodonte. Ele era tão pequeno que falaram “pô, é o filho do outro”, “ele é muito pequeno”, aí eu falei, “é o mini do outro”, e pegou. O outro era gigante, alto, desengonçado, e o meu era bem mais compacto.

    Allkart.net - E o desenho? Inspirou-se em algum outro projeto do exterior?

    Wilson Fittipaldi - Foi uma coisa criada. Eu já tinha dois anos de piloto de kart e pensava em como que deveria ser um kart mais competitivo, mais rápido, mais leve, e aí a inspiração veio.

    Nós fomos testar e logo de cara já tivemos um resultado muito melhor que o do outro. Comecei a fabricar o Kart, e foi um sucesso enorme. Eu fabriquei até quando tinha 19 anos de idade. Já tinha corrido um ano de automóvel, e estava indo para o segundo ano. A fábrica ficava na Rua Tabapuã, no Itaim Bibi (N.R.: bairro da zona sul de São Paulo).

    Allkart.net - Quantos funcionários havia na fábrica da Mini?

    Wilson Fittipaldi - Nós éramos em três pessoas. Eu administrava e tomava conta da parte técnica, tinha um ajudante para entortar canos e um soldador muito bom. Depois foi aumentando, porque as vendas eram muitas. Se comprou uma fresa, um torno, e assim você vai crescendo, crescendo…

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    Wilson Fittipaldi testa, sem capacete, o Mini-Kart (Fonte: Museu do Kart)

    Allkart.net - O Sr. fez faculdade de engenharia, certo? Em que isso lhe ajudou?

    Wilson Fittipaldi - Comecei a faculdade de Engenharia, mas por causa de corrida eu parei e não me formei em nada. Então, o que eu fazia, era pela experiência. Não suportava escola. Nossa, eu era uma negação. Então falei para o meu pai: “vou parar de estudar”. Ele falou “você vai se arrepender no futuro, mas a decisão é sua. Eu vou acatar, mas da seguinte forma: te dou dois meses. Em dois meses você tem que estar trabalhando, senão você volta para a escola”. Foi aí que eu fiz o kart. Sob pressão, muita pressão. No fim, não me arrependi da escolha. Meu envolvimento técnico foi tão grande que eu aprendi o que tinha de aprender fazendo, então não me arrependi de não ter terminado os estudos.

    Allkart.net - E seu pai ajudou de alguma forma?

    Wilson Fittipaldi - Ele ajudou muito pouco. Um pouco sim, mas não muito. Inclusive, quando eu parei o kart e fui para o automobilismo ele e minha mãe se assustaram, pois não queriam. Até me compraram um barco a vela. Eu velejei dois meses na represa de Guarapiranga e disputei um Campeonato Paulista. Mas não tinha jeito: era muito devagar e não fazia barulho.

    Allkart.net - Havia concorrência à Mini?

    Wilson Fittipaldi - Tinha outra marca que apareceu depois, a Silpo, e era bom o kart, mas nada especial. Foi a marca que fez uma pequena concorrência.

    Allkart.net - Como foi a venda da Mini para o Mário de Carvalho, proprietário até hoje? O que o motivou a isso?

    Wilson Fittipaldi - Existia uma fábrica aqui no Brasil chamada Willys, que fabricava carros chamados Interlagos. Fabricavam também o AeroWillys e o Jipe. Eles me fizeram um convite para ser piloto da fábrica, e eu aceitei. Só que tinha muita corrida e eu quase não tinha mais tempo para cuidar do kart. “Não vou ter como continuar o kart”, pensei.

    Eu comprava os motores de uma empresa chamada Riomar, que fazia motores de barcos. Fui conversar então com o Mário, dono da Riomar, e falei “Mário, não tenho mais tempo para cuidar do kart. Vou para o automóvel, meu futuro é lá. Não quer comprar a Mini?”. E ele aceitou. A Mini está aí até hoje. O Mário, como tinha o motor, passou a fazer o chassi também, e manteve a marca Mini (N.R.: Que posteriormente, na década de 90 mudou o nome de Mini Kart para Kart-Mini).

    Allkart.net - Como passaram a ser produzidos pneus próprios para kart?

    Wilson Fittipaldi - A coisa do pneu evoluiu que nem o kart. Com dois ou três anos de kart surgiu uma empresa, que eu não me lembro o nome, em Porto Alegre, que começou a fazer pneus. Era uma empresa que fazia pneus de armários, de carrinhos de mão e para uma série de equipamentos industriais. Eles foram assistir a uma corrida, acharam interessante a ideia, e nós mostramos alguns pneus bons (já tínhamos pneus importados). Eles começaram então a fazer slicks (lisos). Os primeiros feitos no Brasil.

    Allkart.net - Que tipo de referência de kart no exterior existia no Brasil?

    Wilson Fittipaldi - Como começamos tendo base no kart americano, tínhamos mais influência dos EUA. Eu assinava uma revista americana só de kart, então estava super-atualizado. Começaram a trazer um motor norte americano chamado McCulloch. Andava uma monstruosidade. Foi a primeira vez que colocaram motores importados no kart.

    Só depois de uns 15 anos de kart que vieram as marcas da Europa, como a Birel, a DAP, e aí que os pilotos daqui foram para fora e começaram a fazer provas lá, principalmente Campeonato do Mundo. Viram que o kart, para quem queria correr de automóvel, era muito, muito interessante como aprendizado.

    ===

    LEIA A SEGUNDA PARTE DA ENTREVISTA COM WILSON FITTIPALDI JR.A carreira de Wilsinho no kart, os kartistas Emerson e Christian Fittipaldi, Super Kart (competição de karts bimotores realizada nos anos 80) e dá sua opinião sobre o momento atual do kartismo no Brasil.

    Colaboraram Ricardo Belussi (Allkart.net) e Marcelo Afornali (www.museudokart.com.br)

  • Autor:
  • Renan do Couto -

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6 Responses to “Eu ganhei a primeira corrida de kart da história do Brasil”


  1. Pingback: “Eu venci a primeira corrida de kart da história do Brasil” « Por fora dos Boxes

    • zeca diz:
    • 30 de setembro de 2011 at 13:15
    • eu estava la em frente ao clube de campo MARAJOARA onde Wilson e Emerson andavam foi minha primeiro contato com o kart Wilsinho com cabelo comprido (franja) chamando Emerson de RATO eles devem se lembrar estou ate hoje no kart

    • Responder
  2. Pingback: Allkart.net » Retrospectiva 2011: Especiais

    • walter diz:
    • 11 de dezembro de 2014 at 18:14
    • Que bom , recordei boa parte de minha infancia . O Wilson , Jose Carlos Pace , e Claudio Daniel Rodrigues , foram lá pelos anos de 64 para o Guarujá na praia da Enseada , na casa do meu amigo Valdo Cestari , foram eles todos , mais uma ´porçao de Karts , fizeram a garagem da casa de box , iriam correr em volta do mercado municipal do Guarujá , foi muito bacana , foram num Alfa Romeo modelo JK dourado , parece que fotografei o momento . E se alguem ler esse comentário diga ao Emerson , e vejo nas suas entrevistas que ele lembra muito do Valdo Cestari , eram grandes amigos , faleceu logo num desastre . É muita história boa , sao tempos de muita gasolina e oleo na veia . Hoje tenho 64 , mas tenho na memória muito viva esses momentos . Fittipaldi , familia sem igual , WALTER

    • Responder