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  • 24.7.2013 - 17:19
  • Manifesto concreto
  • Por atitudes que tirem todos desse buraco

  • Não sou nenhum veterano do kart ou do automobilismo. Perto de Maurões e Russos que estão aí, sou uma criança nesse negócio. Estou prestes a completar uma década de trabalho direto com o kartismo. Apesar disso, tenho ciência que não sou nenhum expert em acertos, em técnicas de pilotagem. Tenho, vá lá, uma noção de cada coisa. Mas atrevo-me a escrever o que penso às vezes. Por quê às vezes a gente precisa colocar as ideias no papel e ver o que elas repercutem. Vai que dá certo.

    Não estou em Fortaleza, cobrindo o Brasileiro de Kart. Então como base, uso as notícias vindas de lá, especialmente pelas redes sociais. Nesses anos que eu trabalho no kart, nunca vi um Brasileiro de Kart ter um dia todo de atividades “suspensas”. Ainda mais por causa do asfalto se destruir sob as rodas. Já aconteceu, sim – em Mundial de Kart, inclusive -, de reparos de concreto, serem feitos. Normalmente à noite, de um dia para o outro.

    Mas cancelar dois dias de treino (os únicos dois, diga-se) porque o asfalto não aguenta, eu nunca vi. Daí que eu divido este manifesto em dois públicos a quem eu gostaria de dizer algumas coisas. Assim:

    Aos pilotos,

    Pilotos, meus amigos. Que situação para vocês aí em Fortaleza, não? Pilotos, eu sei o tamanho do ego de vocês. Imagino o quanto se prepararam, investiram, sonharam com esse Brasileiro de Kart. É o título mais importante do ano, afinal. Eu sei. É a cobertura que a gente, da imprensa, mais espera, também. Porque é o mais “duca” pelo que vocês fazem dentro da pista.

    Mas pilotos, numa boa, deixem o ego de lado dessa vez. Pensem bem. Vocês vão destruir suas costelas nesse concreto feito às pressas por quê? Por quem? Vale a pena? Já estão aí. O prejuízo já está feito. Querem uma dica? Quando abrirem o treino (se é que vão conseguir), não entrem na pista. Silenciem seus motores. Quem sabe no silêncio “eles” repensem o papel que devem desempenhar. Ou entrem. Mas entrem a pé. De capacete na mão. Sentem no concreto (se estiver seco). Boicotem. Que o dinheiro já gasto seja um investimento, em forma de protesto, na melhoria do esporte. Mostrem que, sem vocês, o Brasileiro de Kart não é nada. Seria muito bom (estou me contendo para não colocar palavrões) ver essa cena. A melhor resposta. Um tapa na cara. Daqueles bem dados. De mão cheia, que estalam. Que é pra ver se aprende.

    Pilotos, meus amigos. Vocês são seniores, graduados, juniores já bem espertinhos. Vocês sabem que não precisam fazer parte dessa vergonha. E sabem que poderão disputar esse título de novo noutro ano. Adoraria vê-los, todos, tomando uma atitude em prol do coletivo de vocês mesmo, sem querer “aproveitar” que só tem dois ou três na pista pra colocar um título brasileiro no currículo. Deixem para disputar o título, e colocar o ego na frente, ano que vem, se tudo se acertar.

    À CBA,

    CBA, CBA…o que falar pra você? Sério que eu tenho que vir aqui dar lição de moral? Como se escolhe uma pista dessas? Como não se vistoria? Como não se exige que o asfalto esteja pronto, curado e testado, sei lá, três meses antes do Brasileiro? Nada contra Fortaleza, que fique bem claro. Não é bairrismo. A cidade é ótima, férias, o pai na pista e a mãe na praia. Mas espera lá. Estamos falando de kart, antes de mais nada.

    Estamos falando de um Campeonato Brasileiro, CBA. Não estamos falando de corrida de rua ziguezagueando guias e postes, não. Você devia levar isso mais a sério. Na hora de escolher a pista do evento, que é um único fim de semana no ano todo, deveria se perguntar, antes de tudo: “Isso aqui vai trazer algo de bom para esses pilotos que vem aqui gastar uma pequena fortuna?”. Mas vocês devem ter seus motivos, imagino. Melhor nem imaginar, talvez.

    Mas CBA, veja só. Sua mãe, a FIA, sempre teve a mesma pompa e circunstância que você quer ter. E sabe o que aconteceu, CBA? Chegou gente fazendo em paralelo campeonatos mais legais, mais atraentes, com mais credibildiade. Credibilidade é a palavra, CBA. Você já a perdeu. Mas voltando, estou falando lá de fora, ok? Qualquer semelhança com o que acontece aqui não é mera coincidência.

    Daí que lá fora, o Mundial de Kart (Mundial, CBA, veja só), quebrou. Faliu! Acredita? Pois é. Sabe o que a FIA fez? Pediu ajuda. Chamou os caras que tinham mais credibilidade e falou: “amigos, peguem isso aqui, pelo amor de Deus. Deem vida para esse negócio de novo. Só deixem o nosso carimbo na folha de resultado”. Daí que o WSK assumiu o Mundial e o Europeu esse ano. E tudo está voltando aos eixos. Porque eles têm credibilidade junto aos pilotos e equipes.

    Sabe, CBA, pedir ajuda nesses momentos não é desonra, não. Ao contrário, pode ser sinal de inteligência. Admitir: “Ok, perdemos a mão. Você aí, que sabe fazer, vem aqui, faz pra gente. Quanto custa? Ok. Vai tirar um pouco do lucro agora, mas se esse cara trouxer mais gente nos próximos anos, o lucro volta a ser o mesmo”.

    Enfim, CBA, ou você faz alguma coisa e acerta isso tudo, ou traz alguém de fora pra fazer isso aí. Alguém que pense fora da caixa, realmente. E, principalmente, alguém cujas atividades não levem, para esse nível de organização, conflitos comerciais. Pensa bem, CBA. Por quê a coisa tá feia. O buraco tá aberto. Se você não agir – e não é com remendo – o terreno cede inteiro.

    ————————————————–

    Atualizada em 25/07/13 – às 11h34

    Atualização nº 1 – Ainda na quarta-feira foi criada uma comissão de pilotos para auxiliar os organizadores do Brasileiro no planejamento e avaliação das obras de reparo. Entre eles, Sérgio Jimenez, Ruben Carrapatoso, André Nicastro, Dennis Dirani e Renato Russo. Não há o que se questionar da capacidade desses caras. Não sei, ainda, se a intervenção deles foi um pedido da CNK ou uma colaboração espontânea. Mas isso não importa, nem a criação dessa comissão tira uma linha sequer do que foi escrito acima. Porque o problema todo veio da falta de planejamento e de orientação aos responsáveis pela obra, frutos do modus operandi falho da CBA.

    Enfim, que esse tenha sido um primeiro e fundamental passo de uma mudança no kart. Que a CBA ouça quem vive o dia-a-dia das pistas. Desejo sorte e que, finalmente, os pilotos todos, através dessa comissão, ganhem voz nesse kart.

    Atualização nº 2 – Vale, bastante, a leitura da coluna do Renan do Couto, que complementa com exatidão todo esse manifesto. Ela está aqui. É só clicar.

  • Autor:
  • Ricardo Belussi - SÃO PAULO - SP

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11 Responses to Manifesto concreto


  1. Pingback: Allkart.net » Coluna: Manifesto concreto

    • delima diz:
    • 24 de julho de 2013 at 18:24
    • porra, Belussi. falou e disse! faz tempo que o kart é dominado por escrotocratas da pior estirpe e faz bem o Allkart em sempre alertar para a realidade: o kart brasileiro definhou. saudações. [aquele]abraço. fabrício

    • Responder
  2. Pingback: Tratem o Brasileiro de Kart como ele merece. Não é assim | POR FORA DOS BOXES

    • KART_REVENGE diz:
    • 25 de julho de 2013 at 12:33
    • Só um comentário: uma comissão formada poR Diranis, Nicastros, Jimenez… até quando estes caras que hoje são ‘empresários’ do ramo do kart vão estar envolvidos nisso?

      Porque um simples piloto não vai lá e encabeça a coisa? Enquanto deixarem as coisas na mão dos ‘empresários’ do kart, o que aconteceu com meia dúzia de kartódromos vai continuar acontecendo. Vide o sr. Giaffone, um dos empresários do kart e que tem responsabilidade direta nesta zona acontecendo em Fortaleza.

      Não questiono aqui a capacidade ou a boa vontade das pessoas citadas acima, os medalhões. O que me incomoda é que raramente surge gente nova pra tomar partido nessa coisa. E quanto mais gente com objetivos que não só o de simplesmente por o ‘popô’ num kart e acelerar, mas sim vender suas assessorias, seus motores, seus chassis, suas peças… quanto mais gente assim tomar partido, maior a chance de qualquer solução tendenciosa aparecer (quando acontecer). Se bem que, se eles tomam partido, ainda é alguma coisa.

      Masss… nao podemos nos esquecer que quando o Sr. Giaffone assumiu, todo mundo pensou: “ah, finalmente que é do meio vai entender os nossos problemas e tocar o assunto direito”…. ledo engano. O que se viu até aqui, na minha opinião, é uma série de homologações duvidosas, pistas em agonia serem milagrosamente ‘assumidas’ por empresas (sim, você sabe a qual(is) estou me referindo), campeonatos morrerem e outros (que levam um nome em particular) tomando força descomunal e por aí vai.

      Eu duvido muito que este post vá ‘ao ar’, mas gostaria de deixar uma enquete a você, caro piloto que dispendeu seu rico dinheirinho com o kart nos últimos tempos:

      ATÉ QUANDO VOCÊ SERÁ GADO?

    • Responder
      • Max Lutjens diz:
      • 2 de agosto de 2013 at 17:42
      • Faço das suas as minhas palavras!!!
        E palhaçada da homologação da Parilla neste ano???
        E eles ainda tem categoria pra correrem….acreditam???

      • Responder
    • Divanir Casagrande diz:
    • 25 de julho de 2013 at 21:34
    • Eu postei um comentário a respeito na terça-feira, mas, o que esta escrito acima é muito melhor e mais completo. Acompanho automobilismo de perto, desde 1.988 e a CBA sempre foi omissa quando algum problema aconteceu. E não é só no Kart.

    • Responder
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    • Max Lutjens diz:
    • 2 de agosto de 2013 at 17:40
    • Ricardo, somos conhecidos de velhos tempos e já tivemos oportunidade de discutir estes aspectos muitas vezes. Você disse tudo com propriedade e sabedoria. A anos que defendo a necessidade dos pilotos organizarem-se. Na Executive em São Paulo tivemos isso! Mas como vc disse muito bem, pena que os egos atrapalham. De toda maneira o estrago já está feito e o buraco cada dia mais fundo!
      Infelizmente o Kart vai cada dia mais pro fundo! (do buraco)
      Max Lutjens

    • Responder