02-12-2008
Rubens Barrichello, em entrevista exclusiva
O paulista Rubens Barrichello conversou com a reportagem do Allkart.net durante os treinos para 500 Milhas de Kart da Granja Viana. No box da sua equipe, chefiada pelo primo Luís Sérgio, o Zé Bolão, Rubinho relembrou fatos que marcaram o início de sua carreira.
Conhecido de todos pela sua história na Fórmula 1, Rubinho antes de despontar no automobilismo europeu foi um exímio piloto de kart. Formado no kartismo paulista em uma época em que Interlagos ainda era um templo sagrado, mas que os pilotos se enfrentavam em diversas pistas pelo interior do estado também, Barrichello foi o maior campeão de sua geração e um dos maiores pilotos já forjados no kartismo nacional.
E tudo isso começou por causa de um passarinho...
Allkart.net - Rubinho, você se lembra da primeira vez que você andou de kart?
Barrichello - “O meu primeiro kart eu ganhei do meu avô materno. (Mário Gonçalves dos Santos). O filho dele é o Dárcio dos Santos (chefe de equipe na Fórmula 3 Sul-americana), que corria, que foi um grande campeão e era meu ídolo na infância. Foi uma pena muito grande, porque a gente perdeu nosso avô quando eu tinha seis para sete anos de idade. E a partir daí o Dárcio teve que parar de correr. Ele seria um grande campeão. Ele tinha talento para ir muito longe.... Mas, voltando ao kart, eu me lembro bem desse dia. A gente foi para a casa do meu avô e ele falou que tinha um passarinho para mim e outro para o Luis Sérgio (Zé Bolão, chefe-de-equipe no kart hoje em dia, que é primo do Rubinho). Aí pensei: 'passarinho?'. Apesar de gostar de bichos, passarinho não é a minha praia, né! Chegamos lá e tinha um kart vermelho para mim e um amarelo para o Luis Sérgio. (Rubinho se recorda, emocionado). A nossa carreira começou ali. O Luís tinha muito gás para ir para frente, mas a “casa dele caiu” financeiramente mais do que a minha e ele não conseguiu dar seqüência. A gente sempre teve dificuldades, mas eu sempre tive muito mais sorte com patrocinadores. Neste dia que ganhamos o kart, ou os 'passarinhos', andamos no estacionamento do Kartódromo de Interlagos, lá em cima. Foi a nossa primeira andada no kart.”
Allkart.net - Como era a competitividade nessa época? Como foram as suas primeiras corridas?
Barrichello - “Na verdade no kart sempre tem alguém que anda bem, sempre é competitivo. Na minha primeira corrida, se não me engano, tinha oito competidores. Eu cheguei em 3º. (NR: Paulista de Kart, em 1980). Na minha segunda corrida fui 2º e na minha terceira corrida eu venci. A partir daí fui tocando.”
Allkart.net - Quem foram seus principais preparadores?
Barrichello - “Meu primeiro preparador foi o China (José Alves Pereira). Depois comecei a trabalhar com o Magrão (Jamil Correia), onde ganhei alguns títulos. E por último trabalhei com o Claudinho, que veio da escola do Magrão. O cara se chama Claudionor Gonçalves dos Santos – tem o mesmo sobrenome da minha mãe! Até hoje ele continua aqui no kartódromo, muito mais gordo, mas com o mesmo espírito. Ele trabalhou comigo até o meu último ano no kart, em 1988.”
Allkart.net - Como eram os duelos com Christian Fittipaldi?
Barrichello - “Nós éramos muito amigos, só que tinha esta rivalidade... Era muito engraçado. Ele estudava em Interlagos e a gente brincava juntos, numa boa. Só que, quando a competição começou ficar bem acirrada, a coisa foi separando, separando... Mas sempre foi muito saudável para ambos. Até mais para mim. Porque eu competia contra um Fittipaldi, e isso dava notícia quando eu ganhava. O Christian fez parte da história da minha infância.”
Allkart.net - Como você se virava com os equipamentos?
Barrichello - “Eu sempre tive muito apoio. Sempre chegava um cara de última hora e falava: ‘Olha. Testa este motor aqui’. Eu sempre fui um cara abençoado. Por isso, quando alguém fala que eu não tenho sorte, esse cara tem que se olhar no espelho. Eu sempre fui um abençoado. Quando saí do kart eu não tinha grana para comprar um Fórmula Ford. Aí compramos um carro que tinha ‘porrado’ duas vezes por uma grana mínima. Esse carro foi alugado pela Ford para ir para Foz de Iguaçu (PR) para uma apresentação e acabou caindo do caminhão durante o transporte. O carro detonou e a Ford me deu um zero! Você vai falar que não sou abençoado?! (emocionado novamente). Eu estreei no automobilismo com um carro zero. Estas histórias são comoventes. Eu sempre tive ajuda. O Araçá (preparador de motores) me ajudou muito. O China também, no começo, quando fazia os meus motores, sempre batalhou muito. Realmente o Christian tinha grana e evolução de equipamento, mas muita gente me ajudava.”
Allkart.net - Que outros pilotos se destacavam naquela época?
Barrichello - “Tinha o Luiz Sérgio, meu primo. Tinha o Gugu Guimarães também. Aí na Graduados tinha o Nonô Figueiredo. Mas o melhor mesmo eram as corridas onde voltou muita gente que já tinha saído para os fórmulas, como o (Renato) Russo, o Túlio Meleguini, o Oswaldo Negri Jr. Só que, para ‘rachar’ mesmo, aí tinha que ser o Christian (risos).”
Allkart.net - Rubinho, você conseguiu vencer o Brasileiro de Kart cinco vezes... Como você se preparava?
Barrichello - “Meu primeiro Brasileiro de Kart foi em 1982, em Foz de Iguaçu (PR). E o último em 1988, na Bahia. Foram sete brasileiros disputados. Eu tenho muito orgulho dos meus cinco títulos brasileiros. Foram campeonatos conquistados com muita raça. Eu tive que lutar, ir para cima dos adversários. Não tinha muito segredo, não. Tinha que ir lá e brigar. Meu pai sempre foi uma pessoa muito determinada, me fazia sempre dormir cedo, ralar. Ele sempre falou que escola era mais importante que o kart. E eu treinava muito e sempre chegava bem preparado para os Brasileiros de Kart.”
Allkart.net - Você chegou a participar de um Mundial de Kart?
Barrichello - “Eu fiz o Mundial em Laval (França), em 1987. Fui o nono colocado. Cheguei na pré-final largando em nono, mas na volta de apresentação meu motor ‘bum’, travou! Aí, levantei o kart, tirei a mangueirinha de combustível e joguei gasolina dentro do carburador. Rodei um pouco e bati no chão. Abri as agulhas e ele andou ‘gordo’ por uma volta até eu recuperar minha posição. Largamos e deu uma baita porrada. Parou tudo. Aí chegou um cara da equipe e eu contei que o motor tinha travado. Ele falou que era impossível, que o motor não travava, bla, bla, bla. Falei pra ele que ia correr e depois ele me contava o que tinha acontecido...”
Allkart.net - Tinha travado mesmo?
Barrichello - “Eu tenho este pistão até hoje (diverte-se)! A ‘camisa’ deu uma comida nele de fora a fora e é um grande presente que eu guardo, fiz questão de levar para casa. Porque mesmo com o motor meio travado eu cheguei em 19º. Ele perdeu muita compressão. Ai na final larguei em 19º e terminei em nono lugar. O Christian chegou em quinto, largando lá na frente. Mais uma volta e eu pegava ele... Laval era uma pista que pegava muito vácuo. Era impressionante.”
Allkart.net - Você preferia correr o Paulista ou o Brasileiro?
Barrichello - “Eu ganhei o Paulista cinco vezes. Era diferente porque você sabia quem ia lutar pelo título. No Brasileiro de Kart sempre aparecia alguma surpresa. O Paulista era mais ‘arroz com feijão’, mas sempre foi muito disputado.”
Allkart.net - Com que chassi você corria na época?
Barrichello - “Eu andei uns três anos de chassi Roma. A conexão com o Romanello (Esteban Romanello, hoje fabricante de acessórios) foi muito boa. O chassi era bom. Mas no final da minha carreira no kart, quem acabou me ajudando muito, principalmente em termos de custos, foi o ‘seu’ Mário (Mário de Carvalho, da Mêcanica Riomar).”
Allkart.net - E lá fora?
Barrichello - “Eu fui uma vez para o Mundial e corri de chassi e motor DAP porque o Senna me aconselhou. Não era o melhor equipamento da época, mas fiz um bom Mundial e cheguei em 9º. O problema era que no Brasil a gente guiava um chassi muito mole com pneu muito duro. Ia para o Mundial e tudo ao contrário. O chassi duro, o pneu mole. Então você pastava, não tinha o que fazer. ”
Allkart.net - Você era um bom acertador de kart?
Barrichello - “Sempre fui ‘cri-cri’. Eu não ficava contente mesmo quando o equipamento estava bom. E isso te faz um cara especialista em buscar sempre um pouquinho mais. Na minha época, quando corria de Graduados A, era muito diferente. Tinha dois carburadores, era uma máquina diferente de dosar. E no final da minha carreira no kart, era muito interessante porque os preparadores reconheciam o meu motor pela cor do pistão (diverte-se). Era o jeito de carburar, aquela coisa toda...”
Allkart.net - Você já gostava de chuva no kart, Rubinho?
Barrichello - “No começo era muito difícil andar na chuva. O (Renato) Russo em ensinou bastante e eu treinava muito quando chovia. Tem que treinar. O cara que não treina, que não vem para a pista, não dá. Tem que treinar. Você tem o talento, mas precisa treinar para colocar em prática. A minha primeira corrida na chuva eu cheguei entre os seis primeiros, mas não ganhei. Mas eu me lembro muito bem depois, quando eu andava de slick (pneus para pista seca) na chuva. Isso me ensinou muito. Rodei como um peão, mas na hora que coloquei os pneus de chuva e peguei a mão do negócio, era outra história. Eu levei isso para os fórmulas, porque é técnica é a mesma.”
Allkart.net - Interlagos era a sua pista predileta?
Barrichello - “Eu andava muito em Interlagos. Eu lembro que depois de um ano e pouco de kart eu falei para meu pai: ‘Pô pai. A gente não vai um dia sair de São Paulo?' Eu tinha vontade de conhecer outras pistas.”
Allkart.net - Na época tinha muita pista no interior...
Barrichello - A primeira pista que eu conheci depois de Interlagos foi o Kartódromo de Jaú (a 296 km da capital paulista). Eu era A-P-A-I-X-O-N-A-D-O por Jaú! Era uma pista animal. Hoje falam que está desativada, mas acho que ainda está lá. Era um circuito excepcional. Você sai no meio da reta, naquela zebra grande, era uma característica única... Eu realmente adorava ir para Jaú.”
Allkart.net - E o kartódromo que tem o seu nome, em Palmas, você conhece?
Barrichello - “Eu sei que tem. Eles pediram permissão para usar o nome, mas não conheço. Eu não tenho tempo para ir para lá. A temporada é longa, muitos testes, família. Então fica difícil se desligar e viajar para Palmas.”
Allkart.net - Manobra “Xis” ou “passão por fora”?
Barrichello - “O ‘por fora’ era difícil ser concretizado no kart porque enroscava. Principalmente porque não época não tinha carenagem. Além do mais, a primeira frase que você aprende no kartódromo é: ‘botou por fora, não deixa. Não deixa que é feio’. Então quando acontecia isso se virasse um pouquinho o cara saía voando, capotando. Mas o que mais me deixava orgulhoso na manobra era a surpresa. Era ‘botar’ onde não esperavam. Isso para mim é o 'x' da questão em qualquer tipo de corrida.”
Allkart.net - Como você vê o kartismo nos dias atuais?
Barrichello - “Eu acho que o kart hoje em dia deve muito à Granja Viana. Porque as categorias que eles estão criando aqui dentro são muito boas. Não estou falando isso porque é minha família. Eu vejo as revistas e vejo que aqui largam 28, 30 karts. E só em Brasileiro você vê isso. Tem também a categoria de moleques, a Cadete, que também larga um monte. Eu não gosto nem de ver esta categoria. Fico imaginando meu filho querendo correr e largando lá no meio do bolo! É fogo!”
Allkart.net - Mas, e no geral, qual a sua visão sobre o kart?
Barrichello - “Eu sinto pelo kart, mas sempre foi assim, com altos e baixos. Na minha primeira corrida tinha sete ou oito pilotos. Agora tem a crise financeira e o kart é muito caro também. Na minha época eu corria com dois jogos de pneus por ano. Já nesta época era caro para mim, porque a família do meu pai trabalhava com materiais de construção em Interlagos e não tinha grana para sustentar o kart. Eram dois pneus, três motores, um ou dois chassis – se desse – e competia o ano inteiro assim.”
Confira no vídeo Rubinho falando sobre o kart
Rubens Barrichello – Carreira no Kart
1981 — Categoria Júnior
Vice-campeão Paulista
1982 - Categoria Júnior
Vice-Campeão Paulista
9º colocado no Campeonato Brasileiro
Campeão do Torneio Folha da Tarde
1983 - Categoria Júnior
Campeão Brasileiro
Campeão Paulista
Eleito pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) o melhor piloto amador do ano
1984 — Categoria Júnior
Bicampeão Brasileiro
Vice-campeão Paulista
1985 - Graduados "B"
Bicampeão Paulista
4º colocado no Campeonato Brasileiro
Campeão das Duas Horas de Interlagos
1986 — Categoria Graduados "A"
Tricampeão Paulista
Tricampeão Brasileiro
1987 — Categoria "A"
Tetracampeão Paulista
Tetracampeão Brasileiro
Campeão Sul-Americano — categoria 125cm3 (Neiva-Colômbia)
9º colocado no Campeonato Mundial
1988 - Categoria "A"
Pentacampeão Paulista
Campeão Paulistano
Pentacampeão Brasileiro
Campeão do Torneio Metropolitano
(*) além destas conquistas, Barrichello foi 8 vezes vencedor da 500 Milhas da Granja Viana e ganhou o Desafio das Estrelas em 2008.
Parabens pela materia, realmente o Rubinho tem razão o Kartodromo de Jau, tem um dos melhores traçados, ele continua la, so que o asfalto é extremente abrasivo, e esta sem segurança para treinos.abraço a todos. www.condec.com.br
É sensacional ter trabalhado com uma pessoa como o Rubinho. E depois de tantos anos ele age com a mesma simplicidade da época de kart.
Allkart parabéns pela matéria. ESPETACULAR!
O Rubens além de excepcional piloto é um humano de primeira qualidade. Fico feliz por ter nascido em nosso kart e ter tido a oportunidade de ver o Rubens na Chuva na Alemanha. Para não esquecermos !!!!
Parabéns!!!
É muito importante para todos nós envolvidos a tanto tempo com o kartismo poder desfrutar de palavras que retratam fidedignamente o nossa paixão pelo kart.
Allkart acertou a "volta" , fez pole , fez a melhor volta da corrida e nós ganhamos com a belíssima reportagem.
Muito boa a entrevista, principalmente a passagem que descreve sobre Laval.
O Barrichello é sortudo mesmo, ainda bem menino, saiu na Revista Motor 3 2 vezes, pelos Jornalistas José Luiz Vieira,que o colocou " guiando" numa reportagem de uma " gaiola" e o lendário Expedito Marazzi,que o entrevistou para a Revista, assim como o Nei fez 27 anos depois.
Sensacional!!!
Parabéns Nei, o Rubinho é um exemplo a ser seguido pela nova geração. Ele é um grande campeão e o allkart pode nos dar esse presente de natal, ficarmos mais próximos do Rubinho. Valeu!